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Como tratar a ansiedade? Uma escuta psicanalítica sobre o que o sintoma revela.

março de 2026
5 min
Como tratar a ansiedade? Uma escuta psicanalítica sobre o que o sintoma revela.

O texto que se segue não se trata de um caso real em si, mas que poderia ser uma vez que se repete de diferentes modos nas clínicas de psicoterapia. Inspirada pela obra “Histórias de Divã” de Gabriel Rollon, criei uma sessão de análise fictícia e logo depois articulei algumas ideias sobre o caso.

Boa leitura!

Prazer, Me chamo Ansiedade!

A ansiedade era o que tinha de mais vivo, quando escutei aquela mulher pela primeira vez.

Ela chegou apressada e se sentou na ponta da poltrona, como se não pudesse se entregar ao conforto daquele sofá macio.

Antes de dizer o nome, se apresentou assim:

_ Eu sou ansiosa por natureza.

Por quase toda a sessão, falou sem pausa para respirar, como também não percebeu que não tinha tirado a bolsa dos ombros e as chaves do carro continuavam nas mãos.

Descrevia a si a partir de sensações:

_ Sinto que meus pensamentos fogem da minha cabeça e que correm círculos, que eu tenho muitas abas abertas ao mesmo tempo e não consigo finalizar nenhuma tarefa, que meu peito fica apertado o dia todo e quando chego em casa para dormir, fico repassando cada segundo do dia para ver aonde eu fui demais ou fui de menos. Tenho medo de tudo e ao mesmo tempo não sei do que tenho medo.

Eu fiquei ali, escutando aquela mulher desaguar todas aquelas palavras enquanto sacudia pernas e braços num ritmo acelerado das sílabas que batucavam feito escola de samba em sua língua.

Ao final da sessão, procuro uma brecha entre as palavras aceleradas e a interrogo:

_ Qual seu nome além de: ansiosa por natureza?

Ela sorri, relaxa na cadeira e diz o nome dentro de um sorriso.

Análise do Caso – O que a ansiedade revela em nós e de nós?

Muitas pessoas chegam à clínica buscando ajuda para a ansiedade, procurando psicoterapia ou iniciando um processo de psicanálise, tentando entender o que fazer com essa sensação constante de inquietação, preocupação e antecipação do pior.

Começaria a pensar neste caso pelo nome que ela escolhe se apresentar:

“ansiosa por natureza”.

Quando alguém transforma um sintoma em identidade, algo importante já está em jogo:

O sofrimento deixa de ser experiência e passa a ser definição!

Não é mais “estou ansiosa”, mas “eu sou assim”. Como se não houvesse uma história que ajudou esta mulher a construir este sintoma, como se não pudesse se questionar se há outro modo de viver.

Temos parte considerável naquilo que nos queixamos, isso quer dizer que por mais doloroso que seja um sintoma, há uma escolha que fazemos para sustentar as coisas do mesmo modo.

A ansiedade por exemplo, mesmo quando se torna adoecimento, é socialmente aceita. No discurso social, este sintoma pode ser lido como: esta pessoa trabalha muito, se dedica muito a família e a tudo que faz e, ela não para, está sempre produzindo algo. Falas desse tipo, podem fazer com que a pessoa possa escolher manter este lugar de “alta performance” pelo reconhecimento que tem perante a sociedade, mesmo que isso custe a própria saúde mental.

Muitas vezes, esse modo de funcionamento constante leva o sujeito a estados de exaustão mental e cansaço emocional que acabam sendo naturalizados no cotidiano.

Antes de seguir, é preciso fazer uma diferenciação importante: a ansiedade em si não é uma doença, ela é uma resposta natural do corpo diante de ameaças ou pressões. Mas quando ela se torna frequente, intensa, e começa a tomar conta da rotina e de retirar prazeres da vida, há algo aí que precisa ser visto, ou melhor, escutado.

Nesses momentos, é comum que as pessoas procurem respostas rápidas sobre como controlar a ansiedade, como vencer a ansiedade ou até mesmo como tratar a ansiedade, buscando diferentes formas de tratamento da ansiedade.

“Por vezes o sintoma é a única oportunidade que o sujeito se deu para se escutar”.

O que o sintoma revela sobre os modos de vida do sujeito, no nosso caso fictício, o que a ansiedade revela?

É aqui, nesta pergunta que a análise entra! Afinal, o exercício de uma análise se trata também de uma fazeção de perguntas, de uma decifração e investigação de si, de nomear as fantasias que fazemos sobre quem somos, nomear os medos, desejos, dar destino aos afetos.

Na clínica, observamos que a ansiedade frequentemente emerge quando o sujeito se encontra capturado pelas demandas do Outro, tentando responder ao que imagina ser esperado dele, ao preço de silenciar o próprio desejo.

Nessa perspectiva a angústia não é apenas um excesso de preocupação, mas um sinal de que algo do que o sujeito deseja precisa ser ouvido e exercido em ato.

O tratamento neste caso se destina a subjetivar o desejo.

Mas o que significa isso?

Subjetivar o desejo significa: reconhecer o desejo como próprio, o diferenciando de expectativas externas, autorizar-se a nomeá-lo como bem entende e sustentar as consequências de suas próprias escolhas.

O tratamento da ansiedade por meio da psicoterapia online, portanto, não se orienta apenas pela supressão sintomática, mas pela construção de um espaço de fala em que o sujeito possa se implicar naquilo que deseja, transformando a angústia de um estado paralisante em um ponto de partida para entender o que está em jogo internamente:

O que de você a ansiedade revela?

E a partir do que se descobre, poder criar novos modos de existir.

Se ao ler este texto você se reconheceu em algo dessa experiência — na inquietação constante, na exaustão mental ou no cansaço emocional que muitas vezes acompanham a ansiedade — pode ser importante não atravessar isso sozinho.

A psicoterapia para ansiedade oferece um espaço de escuta onde é possível compreender melhor o que está por trás desses sintomas e construir outros modos de lidar com eles. O tratamento da ansiedade, nesse sentido, não se limita a tentar silenciar o sintoma, mas busca compreender o que ele revela sobre a história, os desejos e os conflitos de cada sujeito.


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